Decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) que tiveram o sigilo retirado pelo ministro Flávio Dino detalham a engrenagem de uma organização criminosa no Maranhão voltada para corrupção, fraudes em licitações, desvio de verbas públicas e obstrução da Justiça. A investigação aponta uma articulação em duas pontas para proteger o clã do governador Carlos Brandão: o ex-secretário estadual Raimundo Cutrim com atuação direta no Maranhão e o senador Weverton Rocha (PDT-MA) operando em Brasília.
Weverton recebeu propina
O senador Weverton Rocha atuou diretamente junto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para paralisar as apurações que atingiam a família de Carlos Brandão. A PF sustenta a suspeita de que o parlamentar foi pago pela família do governador para intervir nas investigações.
Dados extraídos do aparelho celular de Weverton Rocha revelaram reiteradas comunicações e pedidos de favores em processos ao ministro Humberto Martins, relator da apuração no STJ. Entre os registros, destaca-se uma ligação de cinco minutos em 2 de junho de 2025; no mesmo dia, o ministro determinou a transferência do investigado Gilbson Júnior para Brasília, ato que marcou a paralisação do processo na Corte superior.
PF suspeita que Weverton tentou interferir em investigação que envolve sobrinho de Brandão
Dinheiro vivo
No Maranhão, o ex-deputado e ex-secretário Raimundo Cutrim trabalhou na linha de frente para constranger testemunhas e forçar a alteração de depoimentos. Gravações obtidas pela PF mostram Cutrim instruindo a família de Gilbson Júnior a mentir à polícia para blindar Daniel Brandão e os demais integrantes da família governamental. Cutrim chegou a orientar os parentes a alegar que a esposa do preso passava fome para tentar justificar repasses financeiros.
Depoimentos prestados à PF confirmam que Cutrim entregou pessoalmente R$ 160 mil em espécie à família de Gilbson, verba expressamente apontada como originária de Marcus Brandão, irmão do governador Carlos Brandão. O esquema contava ainda com o suporte do policial federal Edvar Rodrigues dos Santos, afastado pelo STF após ser flagrado vazando dados sigilosos e pressionando investigados a não fecharem acordo de colaboração premiada.
Origem
As investigações revelam que a crise começou com a execução do empresário João Bosco Pereira, ocorrida em agosto de 2022 durante uma reunião para tratar sobre divisão de propinas oriundas de contratos públicos estaduais.
Na cena do crime estava presente Daniel Brandão, sobrinho do governador e atual presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA). De acordo com a Polícia Federal, a Polícia Civil do Maranhão falhou deliberadamente para blindar Daniel, omitindo seu nome dos relatórios iniciais. Imagens de câmeras de segurança que comprovavam as presenças no local sumiram no trajeto entre a delegacia e a perícia técnica.
