No encontro nacional do PT em Salvador, durante a celebração dos 46 anos do partido, Lula foi direto ao ponto ao lembrar que filiação partidária não é etapa burocrática para viabilizar projeto pessoal. “Você entra num partido porque acredita no manifesto, no compromisso e na luta dele. Não se entra num partido para virar candidato”, afirmou, alertando que, quando isso acontece, o partido deixa de ser instrumento político coletivo e passa a ser apenas “igual aos outros”. A fala não foi casual. Foi um chamado à coerência ideológica e à preservação do sentido histórico do PT.
No Maranhão, o recado soa ainda mais incômodo. Iracema Vale foi militante do PT, deixou o partido, se elegeu deputada estadual pelo PSB e, nos bastidores, passou a acenar com um possível retorno ao petismo. O movimento ganhou corpo com articulações internas, cartas de correntes e discursos embalados pela ideia de uma eventual candidatura ao Senado, apresentada como gesto de “unidade” e “ampliação do campo progressista”. Na prática, um retorno sem custo político, sem acúmulo militante recente e sem compromisso orgânico com a vida partidária.
Usar o PT como ferramenta tática para embaralhar o jogo sucessório no Maranhão, tensionar o cenário interno e dificultar a consolidação de nomes como Felipe Camarão não dialoga com o que Lula disse em Salvador. Dialoga, sim, com a lógica que o próprio presidente condenou: a de tratar partidos como plataformas temporárias, úteis apenas enquanto servem a projetos individuais.
No fim, o desfecho foi outro. Iracema assinou ficha no MDB, confirmando que o flerte com o PT tinha mais de blefe estratégico do que de reencontro ideológico. A fala de Lula permanece como referência incômoda. Partido é opção de vida, não instrumento de ocasião. Resta saber se Iracema realmente entendeu o recado do presidente.