Prof. dr. Xico Gonçalves


Em mais um capítulo do debate que tomou conta da mídia maranhense, a presidenta da comissão provisória do PT, Patrícia Carlo, afirma, em entrevista à TV Mirante, não haver veto a Orleans Brandão. Defende o governo estadual, destaca supostas afinidades de Brandão com Lula, descarta qualquer diálogo com Braide, apresenta Iracema Vale — curiosamente filiada ao MDB — como nome petista para a chapa majoritária e, com admirável economia de palavras, ignora a pré-candidatura de Felipe Camarão ao governo pelo próprio PT.


O eixo de sua argumentação, sustentado, segundo ela, em uma conversa privada com Edinho Silva, presidente nacional do PT, e em diálogos deste com lideranças petistas do estado, em Salvador, é simples: o PT insiste na unidade do campo que elegeu o atual governo estadual e não impõe veto algum. Até aqui, tudo rigorosamente dentro do script. Afinal, quem busca aliados raramente os veta em público. Fora mesmo do script, é a presidenta silenciar sobre a origem do debate sobre o veto.


E o detalhe é incômodo. O próprio PT, com base em pesquisas, já concluiu que Orleans Brandão carece de viabilidade eleitoral e política, mesmo com o governador confortavelmente instalado na cadeira mais alta do Palácio dos Leões. E candidaturas sem viabilidade não apenas perdem eleições, comprometem projetos maiores, como a eleição de senadores do campo alinhado ao presidente Lula. Ou seja, a questão é bem mais grave do que o a entrevista da presidenta pretende sugerir.


Na prática, o chamado “veto” à candidatura de Orleans Brandão decorre exatamente do reconhecimento de sua inviabilidade política e eleitoral. E enquanto algumas lideranças, alinhadas a projetos de Senado ou de governo estadual, insistem em diluir ou desacreditar essa análise, inclusive quando ela vem do presidente nacional do PT, Lula, por sua vez, se manifesta como sempre fez: por gestos, encontros, rituais e, sobretudo, silêncios. Basta comparar o encontro com Orleans, em Imperatriz, e o encontro com Camarão, em Salvador. A dissonância entre as falas locais e os gestos presidenciais é eloquente.


Portanto, “veto”, no contexto das conversas de Salvador, não diz respeito a interdição formal, mas a algo bem mais decisivo: análise política e eleitoral, estratégia e correlação de forças. O resto é retórica para consumo externo, ou seja, disputa de posições e narrativas voltada à construção de cenários políticos favoráveis a um rearranjo oligárquico e familiar que contraria qualquer lógica democrática e popular. Só que existe um detalhe no meio das entrelinhas: o relógio está correndo.

Prof. dr. Xico Gonçalves
Professor do Departamento de Comunicação Social – DCS/UFMA, , foi Secretário de Direitos Humanos e Participação Popular Estado do MA e militante do PT há mais de 40 anos.