A possível escolha do deputado Paulo Azi (União Brasil-BA) para relatar a PEC que propõe o fim da escala de trabalho 6×1 acendeu um sinal de alerta em Brasília. O que deveria ser apenas uma etapa formal do processo legislativo passou a ser interpretado como um movimento político capaz de redefinir o destino de uma das pautas trabalhistas mais populares em debate no Congresso. A preocupação não surge do cargo em si, mas do contexto em que a indicação ocorre.
A proposta ganhou força ao traduzir uma insatisfação concreta de milhões de trabalhadores submetidos a jornadas longas e desgastantes. O debate sobre qualidade de vida, produtividade e equilíbrio entre trabalho e descanso finalmente alcançou o centro da agenda política nacional. Justamente por isso, a definição da relatoria tornou-se estratégica. Em uma Casa onde o tempo legislativo é frequentemente usado como instrumento de poder, controlar o ritmo da tramitação pode ser tão decisivo quanto vencer uma votação.
Paulo Azi é identificado com o campo político de centro e alinhado ao grupo do ex-presidente da Câmara Arthur Lira, que consolidou forte influência sobre a organização das pautas legislativas nos últimos anos. Embora a Comissão de Constituição e Justiça tenha função técnica, o relator possui margem para pedir ajustes, prolongar debates e modular o avanço da proposta. Na prática, isso permite esfriar temas sensíveis sem a necessidade de rejeição explícita.
Nos bastidores, cresce a leitura de que a escolha atende a uma estratégia do atual presidente da Câmara, Hugo Motta, interessado em administrar o impacto político da pauta. Em vez de enfrentar diretamente uma proposta com forte apelo social, a alternativa seria conduzi-la por um caminho mais lento e controlado. Em Brasília, muitas propostas não são derrotadas no voto, mas na demora.
A PEC foi impulsionada por parlamentares como Erika Hilton e Reginaldo Lopes, que transformaram uma reivindicação social em discussão institucional concreta. O avanço do tema revelou um choque recorrente entre pressão popular e mecanismos internos do Congresso capazes de diluir mudanças estruturais antes que cheguem ao plenário. A disputa deixou de ser apenas sobre jornada de trabalho e passou a ser sobre quem controla o processo político.
O futuro da proposta agora dependerá menos do discurso público e mais das decisões tomadas dentro das comissões. Se a relatoria servir para qualificar o debate, a Câmara poderá demonstrar sintonia com uma demanda social crescente. Caso contrário, a PEC da escala 6×1 corre o risco de seguir um roteiro conhecido da política brasileira, aquele em que projetos com amplo apoio popular perdem força lentamente até desaparecer da agenda nacional.