A decisão de Carlos Brandão de recuar da disputa ao Senado em 2026 deixou de ser apenas uma escolha eleitoral e passou a carregar um peso político maior. Para muitos aliados do campo governista, o gesto foi interpretado como mais um sinal de afastamento do projeto nacional liderado por Lula e até como uma espécie de traição política silenciosa.
Ao afirmar que “quem vai precisar do Senado é Lula”, o governador não apenas explicou sua decisão. Transferiu a responsabilidade para o presidente e deu a impressão de que o compromisso com o projeto que o sustentou politicamente se tornou secundário. A frase soou menos como análise estratégica e mais como desdém com quem hoje precisa organizar a base política nacional.
Brandão chegou ao governo dentro de uma construção coletiva alinhada ao campo lulista. Não foi um projeto isolado. Foi resultado de alianças, apoios e confiança política acumulada ao longo de anos. Por isso, quando o governador decide preservar exclusivamente seu espaço de poder e ainda coloca o custo político nas mãos de Lula, cresce a percepção de rompimento.
Na prática, o movimento é simples de entender. Permanecer no cargo até o fim do mandato garante controle da máquina pública e influência direta sobre a sucessão estadual. O problema é o sinal político transmitido. Enquanto Lula precisa consolidar apoio no Senado para sustentar seu governo em Brasília, Brandão escolhe se afastar dessa responsabilidade e agir como se o cenário nacional fosse um problema alheio.
Na política, traições raramente são anunciadas. Elas aparecem em gestos, em frases e em decisões que desmontam expectativas construídas coletivamente. É nesse ponto que o episódio ganha força simbólica. O governador parece priorizar a própria sobrevivência política enquanto o projeto que o levou ao poder fica em segundo plano.
Nos bastidores, cresce a avaliação de que o governo estadual se tornou fechado e distante, pouco sensível às alianças e cada vez mais convencido de que o controle administrativo substitui a articulação política. A fala envolvendo Lula reforçou essa imagem de arrogância e desconexão com a realidade política nacional.
O risco desse caminho é claro. Governantes que passam a agir como se não dependessem mais das alianças que os sustentaram costumam descobrir tarde demais que poder político não é permanente. Ele existe enquanto há confiança.
Ao recuar do Senado e empurrar a responsabilidade para Lula, Brandão não apenas tomou uma decisão eleitoral. Criou uma narrativa que muitos já começam a interpretar como abandono de um projeto coletivo.
E na política, quando surge a dúvida sobre lealdade, a pergunta inevitável aparece nos bastidores: se houve ruptura agora, quem será o próximo a ser deixado para trás?