Por: Higo Sousa*

A política maranhense volta a discutir, mais uma vez, a forma como o poder é construído e transmitido no Estado. O nome de Orleans Brandão surge hoje como símbolo de uma tentativa de sucessão política que não nasce de trajetória pública consolidada, mas da estrutura administrativa e financeira de um governo em exercício. A ascensão acelerada do secretário estadual ocorre menos como resultado de liderança social ou formulação política própria e mais como produto de uma engrenagem institucional cuidadosamente organizada.

O Maranhão viveu, a partir de 2014, uma inflexão política relevante com a eleição de Flávio Dino. A vitória representou a formação de uma coalizão ampla que prometia romper práticas tradicionais associadas ao controle oligárquico do Estado. O projeto dinista se estruturou sobre a ideia de modernização administrativa, fortalecimento institucional e redução da política baseada em vínculos pessoais. Carlos Brandão participou desse processo como aliado direto e beneficiário político dessa construção coletiva.

O cenário começa a se alterar após a saída de Dino do governo. A gestão Brandão gradualmente reorganiza alianças e redefine prioridades políticas. O que antes era apresentado como continuidade administrativa passa a assumir contornos de rearranjo interno de poder. A coalizão que sustentou a mudança política no Estado perde coesão, enquanto novos polos de influência ganham centralidade dentro da máquina pública.

É nesse contexto que Orleans Brandão passa a ocupar posição estratégica. À frente da Secretaria de Assuntos Municipalistas, torna-se interlocutor direto com prefeitos e lideranças locais, função que historicamente representa um dos principais instrumentos de construção eleitoral no interior brasileiro. A visibilidade institucional cresce em ritmo incomum para um agente político sem histórico eleitoral expressivo. Inaugurações, agendas públicas e articulações regionais passam a compor uma presença constante que antecede qualquer debate programático consistente.

O problema não reside na legitimidade de uma candidatura familiar ou na tentativa de renovação geracional. A democracia admite ambas. A questão central está no método. Quando a projeção política antecede a experiência pública e quando a exposição institucional substitui o debate de ideias, o processo deixa de ser competitivo para se tornar induzido. A candidatura passa a existir antes mesmo da formação de uma identidade política reconhecida pela sociedade.

Parte significativa da crítica dirigida ao atual governo aponta para a reativação de mecanismos tradicionais da política regional, baseados na centralização de recursos, na ampliação de alianças por meio administrativo e na consolidação de fidelidades políticas sustentadas pela capacidade distributiva do Estado. Trata-se de dinâmica conhecida na literatura política brasileira como clientelismo, fenômeno que reduz a mediação programática e fortalece relações personalizadas de poder.

O rompimento com setores do antigo grupo governista amplia essa percepção. Lideranças que integraram o projeto iniciado em 2014 passaram a denunciar a substituição de um arranjo coletivo por uma lógica mais concentrada, na qual decisões estratégicas se deslocam do campo partidário para o núcleo familiar e político mais próximo do governador. A disputa em torno da sucessão estadual deixa de ser apenas eleitoral e passa a refletir divergências sobre o próprio modelo de gestão pública adotado no Maranhão.

A construção da imagem de Orleans Brandão ocorre, portanto, em ambiente marcado por forte assimetria política. O uso intensivo da estrutura governamental como plataforma de projeção cria a impressão de inevitabilidade eleitoral antes que exista validação efetiva das urnas ou debate público aprofundado. O eleitor é convidado a reconhecer uma liderança que ainda não foi plenamente testada fora do abrigo institucional.

Chamar esse processo de projeto político não é suficiente para explicar sua natureza. Projetos pressupõem formulação, diagnóstico e horizonte programático claros. O que se observa até agora é uma operação de sucessão baseada sobretudo na transferência de capital político e administrativo. A candidatura se organiza de cima para baixo, apoiada mais na capacidade de mobilização estatal do que na construção gradual de legitimidade social.

O Maranhão conhece bem esse tipo de movimento histórico. Sempre que a política se afasta da disputa de ideias e se aproxima da lógica patrimonial, o espaço público se estreita e o debate democrático perde densidade. A emergência de Orleans Brandão como principal aposta sucessória do atual governo expõe essa tensão. Mais do que discutir um nome específico, o Estado volta a enfrentar a pergunta sobre qual modelo político deseja consolidar para o futuro.

Se a política é o lugar da representação coletiva, lideranças precisam nascer do confronto público, da experiência administrativa comprovada e do reconhecimento social autônomo. Quando esses elementos são substituídos por construção institucional acelerada, o risco é transformar candidatura em produto e eleição em etapa final de um processo já decidido nos bastidores do poder.

*Higo Sousa é consultor em Marketing politico e graduando em Ciências Sociais.