Uma ONG que se apresenta como defensora de indígenas e agricultores familiares está no centro de um escândalo que movimentou bilhões de reais. O nome dela é Conafer — Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares do Brasil — e apesar do discurso social, ela é liderada por um empresário do agronegócio.
Quem está por trás da Conafer?
O presidente da entidade é Carlos Roberto Ferreira Lopes, um empresário mineiro ligado ao agronegócio tradicional, dono de uma empresa de melhoramento genético de gado (a Concepto Vet) e de uma holding nos Estados Unidos. Ele também tem negócios familiares com mineração e agropecuária em Minas Gerais.
Apesar de suas atividades empresariais, Carlos Lopes se apresenta em eventos como representante indígena, usando cocares e adereços típicos. No entanto, não é reconhecido por entidades indígenas legítimas, como a APIB.
Um agro “moderno” infiltrado entre os povos indígenas
A Conafer vem ganhando espaço em comunidades indígenas oferecendo ações sociais e infraestrutura, como cestas básicas, patrocínio de eventos e até ajuda para conseguir aposentadorias. Mas, segundo lideranças indígenas, o objetivo por trás seria ganhar influência política e econômica.
Lideranças relataram que a Conafer costuma oferecer vantagens como carros alugados e salários para caciques em troca de apoio. O resultado: uma presença forte em territórios indígenas — algo incomum para entidades ligadas ao agro, que normalmente entram em conflito com povos originários por causa da terra.
Apesar disso, a Conafer diz apoiar causas indígenas, como o fim do marco temporal, o que ajuda a construir uma imagem diferente da do agronegócio tradicional. Mas para muitos indígenas, essa imagem é fachada.

A face empresarial do presidente
Enquanto crescia a influência da Conafer, os negócios pessoais de Carlos Lopes também prosperavam. Além das empresas já citadas, ele fundou a Jaguar, uma marca de produtos artesanais indígenas, com loja no Aeroporto de Brasília e planos de expansão para a Europa.
Na prática, ele mistura o discurso social com interesses comerciais, falando sobre empreendedorismo rural e colocando os povos indígenas como público-alvo de seus projetos. Em um evento, ele disse:
“Temos povos indígenas que têm a total capacidade de se assumir e se representar economicamente no mundo.”
Apoio político do centrão e conexão com garimpo
Carlos Lopes tem como aliado o senador Chico Rodrigues, vice líder do governo Bolsonaro na casa, que já foi flagrado com dinheiro escondido na cueca pela Polícia Federal e acusado de apoiar o garimpo ilegal em terras indígenas. Juntos, eles lançaram uma frente parlamentar para “defender o empreendedorismo rural”, ligando ainda mais a Conafer ao agronegócio político tradicional.
O problema com as aposentadorias
A Polícia Federal investiga a Conafer por descontar valores de aposentadorias de indígenas e outros beneficiários sem autorização. O esquema funcionava com acordos firmados com o INSS, que permitiam descontos diretos em troca de supostos serviços.

Só em 2023, a entidade arrecadou mais de R$ 200 milhões dessa forma. E o número de associados quase triplicou em dois anos. O Tribunal de Contas e a PF apontam que pode ter havido até falsificação de documentos.
Enquanto isso, o INSS já anunciou que vai devolver os valores indevidamente descontados, e suspendeu temporariamente os acordos com a Conafer.