Duas empresas de ônibus que operam em São Luís e enfrentam recuperação judicial por causa de dívidas que chegam a R$ 177 milhões foram transferidas para o nome de um novo personagem: Willame Alves dos Santos, de 26 anos.

Segundo documentos da Junta Comercial do Maranhão (Jucema), Willame passou a ser, desde 29 de janeiro deste ano, sócio-administrador da DAJP Participações Ltda, empresa que controla a Expresso Rei de França, antiga 1001, e a Expresso Grapiúna. As duas fazem parte do Consórcio Via SL e atuam no transporte público da capital maranhense.

O que chama atenção é o perfil do novo “dono” da empresa. Willame é beneficiário do Bolsa Família, recebe atualmente R$ 600 por mês e já respondeu a processos na Justiça. Mesmo assim, passou a aparecer oficialmente como responsável por uma holding com capital social de R$ 3 milhões.

Antes da mudança, a empresa estava registrada no nome de Deborah Piorski Ferreira, filha do empresário Pedro Paulo Pinheiro Ferreira, conhecido como PP, apontado como sócio oculto do grupo.

Pedro Paulo, PP

Os documentos obtidos mostram que Willame adquiriu 100% das cotas da DAJP Participações. Até agora, porém, não foi explicado como ele teria conseguido assumir uma empresa desse porte.

A reportagem tentou contato com a advogada Evelline Freitas, que representa o grupo na recuperação judicial, e também com Eduardo Scarpellini, da EXM Partners, nomeado administrador judicial. Nenhum dos dois comentou a mudança societária.

Documento da Junta Comercial indica que Willame adquiriu empresas de ônibus por R$ 3 milhões da filha do PP

Empresas anunciaram paralisação

Na sexta-feira, 27 de março, as duas empresas informaram a paralisação temporária dos ônibus em São Luís. Segundo as companhias, a medida foi provocada pela falta de repasses financeiros da Prefeitura.

No entanto, a coluna que revelou o caso afirma que o grupo Expresso Rei de França teria usado manobras para escapar de bloqueios judiciais e transferido valores milionários recebidos do poder público para uma mineradora. De acordo com extratos bancários, R$ 1,6 milhão foi repassado à Goldcoltan em cerca de três meses no fim do ano passado. No total, a movimentação apontada chega a R$ 6,7 milhões.

Pedro Paulo, o PP, atualmente ocupa o cargo de vice-presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de São Luís (SET), entidade responsável por administrar a receita dos bilhetes do transporte público e repassar os valores às empresas que operam na cidade. Entre elas, está a própria Expresso Rei de França.

Família de empresário aparece ligada a várias empresas

Credores apontam que Pedro Paulo teria usado familiares para esconder patrimônio. A antiga representante formal das empresas de ônibus, Deborah Piorski, se apresenta nas redes sociais como fotógrafa de moda em Fortaleza, cidade que fica a cerca de 670 quilômetros de São Luís.

Outra filha de PP, Jessica Piorski, aparece como proprietária de várias empresas, entre elas a Goldcoltan Services Ltda, uma empresa de limpeza; a Viação Tucujus Ltda, de transporte coletivo em Macapá; a JPF Trade Importação e Exportação Ltda, voltada ao comércio atacadista de açúcar; e a P3 Bank Ltda, ligada a serviços de conta e cartão para motoristas. Nas redes sociais, porém, Jessica se apresenta como publicitária e criadora de conteúdo geek.

Já Adriana Piorski, também filha do empresário, integra o quadro societário da Unangem Mineração e Metalurgia S.A. Além disso, é conhecida por atuar na área de moda, como criadora da marca Piorski.

A mãe da família, Simone Piorski, também aparece como sócia-administradora de outras duas mineradoras, a Repac Mineração e a NRM – Nordeste Recursos Minerais, além da empresa de ônibus Viação Cidade Nova Ltda.

Novo “dono” já foi preso e responde a processos

O nome de Willame Alves dos Santos também aparece em casos policiais e judiciais. Em 18 de março de 2024, ele foi preso em flagrante, em Fortaleza, suspeito de estelionato e posse de drogas para consumo pessoal.

Segundo o processo, Willame e outro homem faziam pedidos em uma pizzaria, no valor de R$ 50, e enviavam comprovantes falsos de Pix para enganar o estabelecimento. A polícia apreendeu maconha e pedras de crack com ele. Na delegacia, Willame afirmou que receberia drogas como forma de pagamento pelos serviços prestados ao parceiro.

Apesar da prisão, a Justiça concedeu liberdade provisória, com medidas cautelares.

Em outro processo, o Banco Santander acusa Willame de ter comprado uma moto em 48 parcelas de R$ 194 e deixado de pagar quase todo o contrato. De acordo com a ação, ele adquiriu o veículo em julho de 2020, parou de pagar as prestações já em setembro e, quando foi procurado pela Justiça, não foi encontrado no endereço informado. A dívida cobrada é de R$ 8,8 mil.

Além disso, dados do Portal da Transparência mostram que o nome e o CPF de Willame constam entre os beneficiários do Bolsa Família desde pelo menos janeiro de 2020, quando ele tinha 20 anos.

A reportagem também tentou ouvir Willame para saber como ele teria adquirido empresas avaliadas em R$ 3 milhões, mas não conseguiu contato.