Mary Ferreira,
Bibliotecária, Professora e Pesquisadora da UFMA, Doutora em Sociologia e Pós Doutora em Comunicação e Infomação
O Maranhão permanece atravessado por estruturas políticas arcaicas, sustentadas por elites que historicamente se revezam no poder sem romper com a lógica da concentração de privilégios, da apropriação da máquina pública e da reprodução das desigualdades. Em vez de compromisso com a transformação social, o que muitas vezes se observa é a manutenção de um modelo político fundado no controle, no favorecimento e na permanência de grupos familiares nos espaços de decisão.
É difícil não se indignar diante de articulações que visam assegurar continuidade de poder a qualquer custo, inclusive por meio de expedientes que fragilizam a autonomia política, esvaziam o debate democrático e submetem projetos coletivos a interesses particulares. Quando cargos, benefícios e mecanismos de influência passam a funcionar como instrumentos de contenção das divergências e de neutralização das resistências, o que se compromete não é apenas a ética pública, mas a própria possibilidade de construção de um Maranhão mais justo e menos desigual.
O mais grave é perceber que, em determinados momentos, setores que historicamente deveriam estar comprometidos com a mudança terminam por se acomodar a essas práticas, contribuindo, ainda que indiretamente, para a perpetuação de um ciclo político que há muito impede o estado de superar suas mazelas estruturais. O Maranhão não precisa de arranjos de sobrevivência eleitoral; precisa de coragem política para enfrentar os mecanismos que reproduzem sua pobreza e sua exclusão.
No município de São Luís, o cenário não é menos inquietante. Também ali a política tem sido marcada por movimentos que procuram deslegitimar adversários e enfraquecer lideranças que ocupam, com independência, posições de relevância no espaço público. Quando uma mulher, senadora da República, é alvo de investidas políticas por se posicionar com firmeza em defesa da democracia e contra o extremismo, o que se revela não é apenas uma disputa eleitoral ou partidária, mas, a permanência de uma cultura política que reage com hostilidade à presença feminina autônoma e combativa nos espaços de poder.
A senadora Eliziane Gama tem demonstrado, ao longo de sua trajetória, coragem pública, firmeza institucional e compromisso com pautas essenciais à democracia brasileira. Sua atuação em momentos decisivos da vida nacional, bem como sua posição no enfrentamento à violência de gênero e ao autoritarismo, conferem-lhe legitimidade política e reconhecimento para além das fronteiras do Maranhão. Os ataques e tentativas de desqualificação que lhe são dirigidos não podem ser tratados como fatos banais da política: são, em grande medida, expressão da violência política de gênero, ainda tão presente em contextos marcados pelo patriarcalismo e pela resistência à liderança de mulheres.
Também não se pode ignorar o desgaste provocado por administrações que não conseguem oferecer respostas satisfatórias a problemas concretos da população. Questões sensíveis, como mobilidade urbana, transporte coletivo, acesso de estudantes à cidade e efetivação de direitos básicos, exigem compromisso real com a gestão pública e com a dignidade da população. Não é admissível que projetos de poder avancem enquanto direitos elementares seguem sendo tratados com negligência ou insuficiência.
O Maranhão não pode continuar sendo conduzido sob a lógica do personalismo, do familismo político e da confusão entre interesse público e conveniência privada. Não se trata de mera insatisfação episódica, mas de um cansaço histórico diante de práticas que naturalizam a concentração de poder, o uso estratégico dos recursos públicos e a tentativa permanente de apresentar como inevitável aquilo que é, em essência, uma escolha política.
É preciso afirmar, com clareza, que o Maranhão não é propriedade de grupos, sobrenomes ou alianças circunstanciais. É um estado democrático, formado por cidadãs e cidadãos que conhecem sua história, reconhecem os mecanismos de opressão que moldaram suas desigualdades e sabem que a superação de nossas misérias depende, necessariamente, da ruptura com essas velhas engrenagens de poder.
Por isso, o silêncio não pode ser o caminho. A reação democrática, crítica e organizada é não apenas legítima, mas necessária. O Maranhão precisa de uma política fundada em responsabilidade pública, respeito institucional, alternância de poder, compromisso social e reconhecimento da dignidade do seu povo.
Brandão precisa honrar os compromissos políticos que assumiu com o PT e com o presidente Lula. Braide precisa respeitar a senadora Eliziane Gama e, mais do que isso, respeitar as mulheres maranhenses, que não aceitarão ser tratadas com desdém, hostilidade ou silenciamento.
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