Ministro do STF aponta “anomalias”, cita risco de interferência e leva para o Supremo apuração sobre crime ocorrido em São Luís, com menções a familiares do governador e ao senador Weverton Rocha
O assassinato de João Bosco Pereira, ocorrido em 2022, em São Luís, voltou ao centro da crise política no Maranhão. O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, decidiu assumir a relatoria do inquérito que apura o caso, retirando a investigação do Superior Tribunal de Justiça. A apuração envolve suspeitas de uso da estrutura do Estado, menções a pessoas ligadas ao governador Carlos Brandão e também referências ao senador Weverton Rocha.
Decisão leva caso ao centro do STF
Ao justificar a medida, Dino afirmou ter encontrado “diversas anomalias”, “confusão processual”, “procedimentos desordenados” e uma “balbúrdia” no andamento do caso. Na prática, a decisão eleva o peso institucional da investigação e sinaliza desconfiança sobre a forma como a apuração vinha sendo conduzida até aqui.
O ministro também declarou haver “perigo de interferência” na investigação federal e apontou risco de “queima de arquivo”, principalmente em relação à mulher do assassino confesso, que denunciou ameaças e ajudou a levar o caso para a esfera federal.
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O que está sendo investigado
O novo inquérito, conduzido pela Polícia Federal desde maio do ano passado, foi aberto depois da investigação estadual que terminou com a condenação do autor do crime a 13 anos de prisão. Agora, a apuração tenta responder se o homicídio teve relação com uma suposta cobrança de propina envolvendo Daniel Brandão, sobrinho do governador Carlos Brandão.
Segundo a reportagem, Daniel Brandão estava no local do crime e se reuniu com os envolvidos pouco antes do assassinato. Hoje, ele ocupa o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão. Em sua defesa, ele afirma rejeitar qualquer tentativa de associar sua imagem a práticas ilícitas.

As versões de Gilbson sobre o crime
Um dos pontos mais sensíveis do caso é a mudança nas versões apresentadas por Gilbson Cesar Soares Cutrim Junior, autor confesso do assassinato. No começo, ele disse que matou João Bosco por causa de um desentendimento comum, sem ligação com política ou com qualquer esquema de propina.
Depois, a narrativa mudou. Em novos depoimentos, Gilbson passou a afirmar que prestava serviços para a família Brandão e que o crime aconteceu após uma reunião para tratar de propina com Daniel Brandão, que na época era secretário de Estado. Foi essa mudança que deu um novo rumo ao caso e ampliou o alcance da investigação.
Em depoimento à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal, Gilbson ainda afirmou que Carlos Brandão lhe apresentou Flávio Costa como alguém que “resolve tudo” para a família. Segundo ele, existiria um “núcleo jurídico” que acompanhava serviços prestados por ele ao grupo, entre eles transporte de dinheiro vivo em campanha, negociação de terras e cobrança de credores do Estado para devolução de parte dos valores depois da liberação dos pagamentos.
Essas mudanças são tratadas com cautela, mas tiveram peso na reabertura e no aprofundamento das apurações. Ao mesmo tempo em que levantam dúvidas sobre a consistência dos relatos, também abriram novas frentes de investigação sobre possíveis conexões entre o homicídio e interesses políticos no Maranhão.
Depoimentos, ameaças e suspeita de obstrução
Em um dos trechos mais graves da decisão, Dino afirmou que “a própria testemunha permanece exposta a ameaça de eliminação física” e que “as lacunas observadas na investigação do homicídio revelam possível captura de servidores públicos estaduais”.
Estaria a família Brandão obstruindo a Justiça?
Com esse entendimento, o ministro mandou suspender uma apuração da Polícia Civil do Maranhão que tinha como alvo denúncias feitas pela companheira do assassino contra aliados do governo. Para Dino, era necessário apurar se havia tentativa de obstrução da Justiça e interferência sobre a investigação federal.
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Weverton é citado e nega envolvimento
O caso também ganhou repercussão por citar o senador Weverton Rocha. De acordo com informações anexadas ao processo, ele teria sido mencionado em um relato sobre suposta proposta milionária para “abafar o processo” no STJ. Dino afirmou que os fatos, “em tese”, poderiam indicar tentativa de “ocultar ou garantir a impunidade” de eventuais envolvidos.
Weverton negou qualquer participação. Disse causar “profunda estranheza que notícia sem fonte e sem base em fatos” seja usada para relacioná-lo ao caso.
Disputa política amplia impacto do caso
A decisão de Dino também conecta o inquérito à disputa por vagas no Tribunal de Contas do Estado. Segundo o ministro, há paralelos entre o caso do homicídio e processos que já tramitam sob sua relatoria envolvendo indicações para a corte de contas maranhense. Em uma dessas frentes, Dino já havia barrado a indicação de Flávio Costa, apontado na matéria como amigo e advogado pessoal de Brandão.
No processo, o nome de Flávio Costa aparece em depoimento do assassino confesso, que o descreveu como alguém que “resolve tudo” para a família Brandão. A decisão do ministro diz que os fatos narrados “podem indicar uma hipotética organização criminosa dedicada a controlar o Tribunal de Contas do Estado do Maranhão com uso de estruturas administrativas, inclusive policiais, e suposta corrupção com proposta de acobertar crimes, inclusive de homicídio”.
O que diz o governo
O governo do Maranhão reagiu afirmando que a decisão “causa estranheza” e criticou a tentativa de ligar “temas de naturezas completamente distintas”. Também sustentou que o autor do homicídio confessou o crime e “reiterou a mesma versão em mais de dez depoimentos formais”.
Ainda assim, com a entrada direta do STF e da Polícia Federal no caso, o assassinato passa a ser tratado em um contexto bem maior do que o de um crime isolado. O que está sob investigação agora é a possibilidade de que o homicídio tenha sido cercado por interesses políticos, pressão sobre testemunhas e tentativa de interferência no rumo da apuração.
Com Informações de Estadão
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