Por Higo Souza*

A decisão pública de Carlos Brandão de permanecer no governo do Maranhão até o fim do seu mandato, abrindo mão de renunciar para disputar uma vaga ao Senado e, assim, “salvar o grupo político”, não apenas redefiniu o tabuleiro eleitoral local, mas insere um tema humano e universal da política: o sacrifício que corrói o protagonista em nome de um projeto que ele acredita maior do que ele mesmo. 

Brandão, conforme ele mesmo afirmou em entrevista recente, tentou persuadir seu vice, Felipe Camarão, a renunciar ao cargo para que ele pudesse disputar as eleições de outubro de 2026 sem abrir mão do comando do Palácio dos Leões, temendo que, ao entregar o poder administrativo a alguém de quem se desentendeu politicamente, afastado do grupo, estaria criando uma ameaça à continuidade do projeto que ajudou a construir. “Às vezes é melhor ficar sem mandato, mas salvar o grupo”, disse ele. 

Essa frase é um espelho de um dilema milenar.

É o dilema de King Lear, que abdicou da autoridade sem reinar verdadeiramente e acabou tragicamente despojado de tudo. É a história de Júlio César, que confiou nos laços de amizade e acabou traído por aqueles que buscavam manter a República. Na literatura e nas grandes narrativas, o gesto de confiança ou de sacrifício muitas vezes não traz redenção ao personagem, mas o lança numa trajetória de desgaste, vulnerabilidade e, em última instância, aniquilação de expectativas.

Na política, o gesto de Brandão reflete um cálculo, ou melhor, um paradoxo: quanto mais se “salva o grupo”, mais se expõe o indivíduo. Porque no grande teatro do poder, mandato é proteção. Com mandato em mãos, um governante tem foro privilegiado, poder institucional, condição de articulação e, sobretudo, capacidade de influenciar o destino de aliados e adversários. Fora do mandato, todas essas proteções se desvanecem, especialmente num cenário em que disputas judiciais e políticos estão atentos à condução administrativa no passado recente.

Não se trata apenas de estratégias eleitorais; trata-se de consequências reais. Ao optar por permanecer no cargo em vez de concorrer ao Senado, condição em que teria de renunciar cerca de seis meses antes das eleições, Brandão abriu mão não só de uma chance de ampliar sua projeção nacional, mas também de manter uma plataforma de influência direta num tempo em que, fora do cargo, ele se tornará vulnerável ao escrutínio judicial e político do ano eleitoral e do pós-eleitoral. 

Há algo de profundamente humano nessa encruzilhada: muitos líderes acreditam que o projeto coletivo é maior do que a carreira individual. Mas a história mostra que essa confiança, quando mal calibrada, costuma esmagar o destino daquele que se coloca como guardião de um grupo. O general romano Pompeu acreditou que sua lealdade ao Senado e às tradições da República o protegeria de César; terminou derrotado. Napoleão acreditou que sua visão de Europa unificada justificava sacrifícios pessoais; morreu no exílio. Mesmo na ficção, personagens que se entregam ao destino do grupo quase nunca encontram um epílogo favorável, a menos que exista um equilíbrio entre risco e proteção institucional, algo que, ao abrir mão de uma disputa aberta e de renunciar para concorrer, o governador não teve.

O gesto de Brandão ressoa também com um estudo mais frio da ciência política: o princípio da sobrevivência do ator político. Um político começa e termina sua trajetória dependendo de estruturas formais (mandatos, cargos, alianças) que possam, de alguma forma, garantir ou postergar sua vulnerabilidade. Ao preferir o cargo a um novo mandato eletivo, ele escolhe a manutenção de um poder presente, mas abdica de uma projeção futura que poderia conferir a ele outro tipo de foro político e institucional. Na arena pública, onde alianças se redesenham com velocidade, isso pode significar uma diluição de capital político que dificilmente será recuperado no futuro.

E mais: no vai e vem das lealdades internas, a continuidade do grupo político, que Brandão pretende proteger, pode se tornar menos rentável sem a presença dele em um novo palco, o Senado, onde articuladores e alianças se confirmam. O salvador do grupo pode, paradoxalmente, esvaziar sua própria centralidade, deixando que outros definam os rumos da história que ele mesmo ajudou a escrever.

A reflexão final que esse episódio nos oferece é simples e dolorosa: na política, o sacrifício é um gesto nobre apenas quando resulta em algo que transcende o indivíduo sem destruí-lo no processo. Caso contrário, ele vira lição de história: o líder que renuncia ao futuro por amor ao presente muitas vezes se encontra sozinho na linha do tempo, lembrado pelos muitos que sobreviveram ao gesto, mas esquecido do significado que ele pretendia concretizar. É a linha tênue, e cruel, entre salvar o grupo e sacrificar o protagonista.


Higo Souza é graduando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), consultor em Marketing Político, com 15 anos de experiência em campanhas eleitorais, articulação e comunicação estratégica.